quarta-feira, 7 de maio de 2014

A SEREIAZINHA PEDAÇO 2

E finalmente ela completou quinze anos. "Bem, agora, você já é adulta," disse a velha viúva, que era sua avó, "então, deixe-me enfeitá-la como as suas outras irmãs," e a avó colocou uma coroa de lírios brancos em seus cabelos, e cada pétala da flor era metade de uma pérola. Então, a boa senhora ordenou que oito grandes ostras fossem presas à cauda da princesa a evidenciar sua alta nobreza.
"Mas elas me machucam muito," disse a pequena sereia.
"A nobreza deve suportar a dor," respondeu a boa senhora. Oh, com alegria ela teria sacudido toda aquela grandeza, e colocado de lado a pesada coroa! As flores vermelhas que cultivava em seu jardim lhe teriam sido muito mais apropriadas, mas de nada adiantava: então, ela disse, "Adeus," e subiu tão leve como uma bolha à superfície da água. O sol já tinha ido dormir quando ela levantou a cabeça acima das ondas, mas as nuvens estavam tingidas de vermelho e dourado, e através do crepúsculo cintilante a estrela da noite brilhava com todo seu esplendor.
O mar estava calmo, e a atmosfera estava leve e fresca. Um grande navio, com três mastros, se estendia tranquilo sobre as águas, com apenas uma vela levantada, porque não havia nenhuma brisa, e os marinheiros estavam ociosos no convés enquanto outros retesavam as cordas. Havia canções e musicalidade a bordo, e a medida que a noite se aproximava, centenas de laternas eram acesas, como se as bandeiras de todas as nações tremulassem no ar. A pequena sereia nadou até perto das janelas das cabines, e de vez em quando, quando as ondas a levantavam, ela podia olhar dentro através das janelas transparentes como o vidro, e via dentro um monte de pessoas bem vestidas. Entre elas estava um jovem príncipe, o mais lindo de todos, com olhos negros e arredondados, ele tinha apenas dezesseis anos de idade, e eles estavam comemorando o aniversário dele com muita alegria.
Os marinheiros estavam dançando no convés, mas quando o príncipe saiu para fora da cabine, mais de centenas de foguetes subiram no ar, clareando tudo como se fosse dia. A pequena sereia ficou tão assustada que ela mergulhou para debaixo das águas, e quando ela colocou a cabeça para fora novamente, parecia como se todas as estrelas do céu estivessem caindo ao lado dela, ela nunca tinha visto fogos de artifícios como aqueles antes. Sóis imensos lançavam fogo por toda parte, esplêndidos vagalumes voavam no céu azul, e tudo era refletido no mar calmo lá embaixo. O próprio navio estava tão iluminado que todas as pessoas, e até mesmo a corda mais diminuta, poderia ser vista distinta e claramente. E o jovem príncipe lhe pareceu muito belo, quando ele apertava a mão de todos os presentes e sorria para eles, enquanto a música ecoava através da noite clara.
Já era muito tarde, todavia, a pequena sereia não conseguia tirar os olhos do navio, nem do belo príncipe. As lanternas coloridas haviam se apagado, foguetes não subiam mais para o ar, e o canhão havia cessado de atirar, mas o mar ficou inquieto, e um gemido, um som de alguém resmungando podia ser ouvido debaixo das ondas: era uma pequena sereia que havia ficado perto da janeda da cabine, balançando para cima e para baixo sobre a água, o que permitia que ela olhasse dentro. Depois de algum tempo, as velas foram rapidamente desfraldadas, e o navio real prosseguiu a sua viagem, mas logo as ondas subiram mais altas, nuvens pesadas escureciam o céu, e um relâmpago brilhou na distância. Uma tempestade assustadora estava se aproximando, mais uma vez as velas foram enrizadas, e o grande navio prosseguiu em sua rota de viagem sobre o mar furioso.
As ondas tinham as alturas das montanhas, e subiam mais altas que o mastro, mas o navio mergulhava como se fosse um cisne entre elas, e depois voltava a subir criando majestosas cristas de espumas. Para a pequena sereia tudo era uma grande alegria, mas não para os marinheiros. De repente o navio rangeu e começou a gemer, as pranchas espessas abriam caminho sob o chicoteamento do mar que estourava em cima do convés, o mastro principal foi reduzido a destroços como se fosse um junco, o navio começou a pender de lado, e a água invadia tudo. A pequena sereia agora percebia que a tripulação corria perigo, até ela mesmo tinha que ter cuidado para evitar as vigas e as tábuas do naufrágio que se espalhavam pela superfície.
Em determinados momentos a escuridão era tanta que ela não conseguia enxergar um único objeto, mas o clarão de um relâmpago mostrava toda a paisagem, ela podia ver todos que estavam a bordo com exceção do príncipe, quando o navio se rompeu, ela tinha visto quando ele naufragou nas ondas profundas, e ela ficou feliz, porque pensou que ele agora estaria em sua companhia, e então, ela se lembrou que os seres humanos não podiam viver dentro da água, de modo que quando ele descesse até o palácio de seu pai ele já estaria morto.
Mas ele não deveria morrer. Então, ela nadou no meio das vigas e das tábuas que estavam espalhadas pela superfície do mar, esquecendo-se de que elas poderiam esmagá-la em pedacinhos. Então, ela mergulhou profundamente sob as águas escuras, subindo e descendo com o movimento das ondas, até que finalmente ela conseguiu alcançar o jovem príncipe, que rapidamente perdia a força de nadar naquele mar tempestuoso. Seus braços e pernas já não aguentavam mais, seus lindos olhos estavam fechados, e ele teria morrido se a pequena sereia não tivesse vindo ajudá-lo. Ela manteve a cabeça dele fora da água, permitindo que as ondas o levassem para onde quisessem.
Pela manhã a tempestade já havia passado, mas do navio nem um único fragmento podia ser visto. O sol subia vermelho e reluzente da água, e seus raios traziam de volta os tons de vitalidade no rosto do príncipe, mas seus olhos permaneciam fechados. A pequena sereia beijou-lhe a testa alta e macia, e ajeitou os seus cabelos úmidos, para ela, ele parecia a estátua de mármore que ela tinha em seu pequeno jardim, e tornou a beijá-lo, e desejava que ele estivesse vivo. De repente a paisagem terrestre se desenhou diante dela, ela via as montanhas azuis e majestosas, sobre as quais a neve branca descansava como se um bando de cisnes tivesse pousado sobre elas. Perto do litoral havia lindas florestas verdes, e nas proximidades ficava um construção alta, porém, ela não conseguia dizer se era uma igreja ou um convento.
Pés de laranja e de limão cresciam no jardim, e na frente das portas estendiam-se majestosas palmeiras. O mar nesse ponto formava uma pequena baía, onde a água era muito calma, porém, muito profunda, então, ela nadou com o belo príncipe até a praia, que era coberta por uma areia fina e branca, e ali ela o depositou sob o calor do sol, tomando o cuidado de levantar a cabeça dele mais alto que o corpo. Os sinos tocavam naquele edifício imenso e branco, e um grupo de garotas vieram até o jardim. A pequena sereia nadou um pouco mais além da praia e ficou sentada entre algumas pedras altas que se elevavam da água, então, ela cobriu a cabeça e o pescoço com a espuma do mar de modo que o seu pequeno rostinho não podia ser visto, e ficou observando para saber o que tinha acontecido com o pobre do príncipe.
Ela não precisou esperar muito até que viu uma garota se aproximar do lugar onde ele havia ficado. A princípio, ela pareceu assustada, mas apenas por alguns momentos, depois foi buscar algumas pessoas, e a pequena sereia viu quando o príncipe voltou à vida novamente, e sorria para aqueles que estavam em volta dele. Mas para ela ele não enviou nenhum sorriso, ele não sabia que ela havia salvo sua vida. Isso fez com que ela ficasse muito triste, e quando ele foi conduzido de volta para o grande edifício, ela mergulhou tristemente para dentro da água, e voltou para o castelo de seu pai. Ela sempre tinha sido silenciosa e meditativa, e agora mais do que nunca. As suas irmãs lhe perguntaram o que ela tinha visto durante a sua primeira visita à superfície da água, mas ela não queria lhes contar nada. Muitas noites e muitas manhãs ela visitou o lugar onde havia deixado o príncipe.
Ela viu quando as frutas do jardim amadureceram até serem colhidas, a neve nos topos das montanhas se derreteram, mas ela nunca voltou a ver o príncipe, e então, ela voltou para casa, cada vez mais triste do que antes. Seu único consolo era ficar sentada em seu pequeno jardim, e colocar seus braços em torno da linda estátua de mármore que se parecia com o príncipe, mas ela deixou de cuidar das flores, e elas cresciam em completa confusão pelos caminhos, entrelaçando suas longas folhas e caules em torno dos galhos das árvores, de modo que o lugar ficou todo escuro e sombrio. Até que ela não aguentou esperar mais, e contou para uma de suas irmãs tudo o que tinha acontecido. Então, as outras ficaram sabendo do segredo, e logo uma amiga da pequena sereia também ficou sabendo e suas amigas íntimas por acaso sabiam quem era o príncipe. Ela também tinha participado da festa no convés do navio, e contou para elas de onde o príncipe era, e onde ficava o seu palácio.
"Venha, minha irmãzinha," disseram as outras princesas, então, elas deram-se os braços e subiram fazendo uma grande fileira até a superfície da água, perto do lugar onde elas sabiam que ficava o palácio do príncipe. Esse lugar era construído com pedras brilhantes amarelas, com longos lances de degraus de mármore, um dos quais descia até o mar. Esplêndidas cúpolas douradas subiam acima do telhado, e entre as colunas que cercavam o edifício todo havia estátuas de mármore que pareciam ter vida. Através dos cristais transparentes das majestosas janelas podiam-se ver os aposentos reais, com cortinas de seda caríssimas e tapetes feitos de tapeçaria, ao passo que as paredes estavam cobertas por pinturas belíssimas proporcionando uma visão muito agradável.
No centro do salão mais amplo uma fonte lançava seus jatos de água cintilantes bem alto até a cúpola de vidro do telhado, através do qual o sol espalhava seus reflexos na água e sobre as lindas plantas que cresciam em torno da base da fonte. Agora que ela sabia onde ele morava, ela passava muitas tardes e muitas noites nas águas perto daquele palácio. Ela gostava de nadar bem perto da praia mais do que as outras se atreviam a fazer isso, e de fato, um dia ela chegou quase perto do canal estreito sob a varanda de mármore, que estendia uma sombra enorme sobre a água. Aqui ela gostava de ficar sentada e olhava o jovem príncipe, que estava totalmente sozinho sob o clarão do luar.
Muitas vezes ele ficava observando quando ele saía para velejar à noite num delicioso barco, com músicas tocando e bandeiras balançando. Ela ficava espiando por entre os juncos verdejantes, e se o vento abraçava seu longo véu branco-prateado, aqueles que observassem de longe acreditariam que ela era um cisne, espraiando suas asas. Durante muitas noites, também, quando os pescadores, com suas tochas, saíam para o mar, ela os ouvia contando tantas coisas bonitas sobre as aventuras do jovem príncipe, que ela ficava feliz por ter salvo a vida dele quando ele foi sacudido quase sem vida no meio das ondas. E ela se lembrava de que a cabeça dele estava deitada em seu peito, e que ela o havia beijado com o coração, mas ele não sabia nada a esse respeito, e não poderia jamais sonhar com ela.
Cada vez mais ela gostava dos seres humanos, e desejava cada vez mais poder passear com aqueles cujo mundo parecia ser muito maior que o dela. Eles podiam viajar pelo mar em navios, e subir as altas colinas que ficavam acima das nuvens, e as terras que eles possuíam, suas florestas e seus campos, se estendiam na distância muito além do alcance dos seus olhos. Havia tanto que ela gostaria de conhecer, e as suas irmãs não conseguiam responder a todas as perguntas que ela fazia. Então, ela procurou a sua avó, que sabia tudo sobre o mundo lá em cima, e que ela, com muita propriedade chamava de terra acima do mar.
"Se os seres humanos não se afogarem," perguntou a pequena sereia , "eles podem viver para sempre? eles nunca morrem como nós morremos aqui no mar?"
"Sim," respondeu a gentil senhora, "eles também devem morrer, e o tempo de vida deles é mais curto que o nosso. Nós às vezes podemos viver até trezentos anos, mas quando nós deixamos de existir aqui nós viramos apenas espuma na superfície da água, e nós nem sequer temos uma sepultura aqui embaixo daqueles a quem amamos. Não somos almas imortais, jamais viveremos novamente, mas, assim como as algas verdes, uma vez que tenhamos sido cortados, nunca iremos florir novamente. Os seres humanos, pelo contrário, têm uma alma que vive para sempre, sobrevive ao corpo quando este retorna para o pó. Ela ascende através do ar puro e cristalino para além das estrelas reluzentes. Quando nós saímos fora da água, e contemplamos toda a terra do planeta, eles também sobem até regiões desconhecidas e gloriosas que nós jamais veremos."

A SEREIAZINHA:LER É VIVER & RENASCER

A pequena sereia

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uito além do oceano, onde a água é tão azul como a flor do loio, e tão clara como o cristal, era um lugar muito, muito profundo, tão profundo, de fato, que nenhum cabo poderia atravessá-lo: muitos campanários de igreja, amontoados uns sobre os outros, não conseguiriam alcançá-lo do chão, abaixo da superfície da água até lá em cima. Lá era o palácio do Rei dos Mares e de seus súditos. Não podemos imaginar que exista algo no fundo do mar mas apenas a areia amarela. De fato, as flores e as plantas mais espetaculares crescem nessa região, as folhas e suas hastes são tão flexíveis, que a menor turbulência na água faz com que elas se agitem como se tivessem vida. Peixes, grandes e pequenos, deslizam por entre os galhos, assim como os pássaros voam por entre as árvores aqui na terra. No lugar mais fundo de todos, fica o castelo do Rei dos Mares. Suas muralhas foram construídas com coral, e as janelas longas e no estilo gótico são do mais puro âmbar. O teto é coberto de conchas, que abrem e fecham a medida que as águas fluem sobre elas. A beleza resplandece aqui soberana, pois em cada uma delas há um pérola cintilante, que ficaria perfeita no diadema de uma rainha.
O Rei dos Mares estava viúvo há muitos anos, e a sua mãe, já idosa, é quem cuidava do palácio para ele. Ela era uma mulher muito sábia, e tinha muito orgulho de sua origem nobre, e por esse motivo ela usava doze ostras na cauda, ao passo que as outras, também com elevada hierarquia, era permitido usar somente seis. Todavia, ela era merecedora de muitos elogios, especialmente pelo cuidado que tinha com as pequenas princesas do mar, as suas netas. Elas eram seis crianças lindas, mas a caçula era a mais bela de todas, sua pele era tão clara e delicada como a pétala de uma rosa, e os seus olhos eram tão azuis como o mar mais profundo, mas, como todas as outras, ela não tinha pés, e o seu corpo terminava numa cauda de peixe.
O dia todo elas brincavam nos grandes salões do castelo, correndo por entre flores vivas que cresciam ao redor da muralha. As imensas janelas de âmbar eram abertas, e os peixes entravam, assim como as andorinhas voam para dentro de nossas casas quando abrimos as janelas, exceto que os peixes nadavam até as princesas, comiam em suas mãos, e gostavam que fizessem carinho neles. Fora do castelo ficava um belo jardim, onde crescia flores vermelhas e brilhantes e outras azuis escuras, além de inflorescências que pareciam chamas de fogo, as frutas brilhavam que nem ouro, e as folhas e os caules moviam para lá e para cá continuamente. A terra era feito da areia mais delicada, porém, azul como a chama do enxofre incandescente.

A pequena sereia
ilustração de Anne Anderson (1874–1930)
Acima de tudo brilhava uma extraordinária radiação azul, como se estivesse rodeada pelo ar lá do alto, através da qual o céu azul brilhava, ao invés das sombrias profundezas do mar. Em tempos de calmaria o sol podia ser visto, parecendo uma flor púrpura, com a luz fluindo do cálice. Cada uma das jovens princesas tinha um pequeno pedaço de terra dentro do jardim, onde elas podiam cavar e plantar o que quisessem. Uma fazia o seu canteiro de flores com o formato de uma baleia, uma outra achou melhor fazer o dela como a figura de uma pequena sereia, mas o canteiro da caçulinha era redondo como sol, e era formado por flores tão vermelhas como os raios do entardecer. Ela era uma criança especial, sossegada e pensativa, e enquanto suas irmãs se regozijavam com as coisas maravilhosas que conseguiam dos naufrágios dos navios, ela não se preocupava com nada, exceto com suas lindas flores vermelhas como o sol, e também de uma maravilhosa estátua de mármore. Ela era a representação de um lindo garoto, esculpida numa pedra totalmente branca, que tinha caído no fundo do mar de algum naufrágio.
Ela havia plantado perto da estátuta um pé de chorão de cor rósea. Ele crescia esplendidamente, e em pouco tempo já espalhava seus tenros galhos por cima da estátua, descendo até as areias azuis. A sombra tinha um tom violeta, e ela se movia para lá e para cá como os galhos, parecia como se a coroa da árvore e a raiz estivessem brincando, e tentassem beijar uma a outra. Nada lhe dava tanto prazer como ficar ouvindo sobre as coisas do mar lá em cima. Ela fez com que sua vó lhe contasse tudo o que ela sabia sobre os navios e as cidades, as pessoas e os animais. Para ela não exista coisa mais maravilhosa e mais linda do que saber que as flores da terra tinham perfumes, mas não aquelas que viviam abaixo no mar, e que as árvores das florestas eram verdes, e que os peixes flutuando entre as árvores cantavam com tanta doçura, que era um prazer muito grande ficar ouvindo tudo isso. A sua vó chamava as aves de pequenos peixes, porque a pequenina não entenderia, pois ela nunca tinha visto um pássaro.
"Quando você chegar aos quinze anos," disse a avó, "você terá permissão para subir e sair do mar, sentar entre os rochedos ao luar, enquanto os grandes navios ficam passando, e então, você irá conhecer tanto as florestas como as cidades."
No ano seguinte, uma de suas irmãs completaria quinze anos: mas como cada uma delas era um ano mais jovem que a outra, a mais jovem teria de esperar cinco anos antes de chegar a sua vez para subir até a superfície, para observar a terra como fazemos. No entanto, cada uma prometia dizer às outras o que elas tinham visto na primeira visita, e o que elas tinham achado mais lindo, porque a avó delas não conseguia contar tudo, havia tantas coisas sobre as quais elas queriam ter informação. Nenhuma delas ansiava tanto pela sua vez de subir como a mais jovem, ela que tinha o mais longo tempo de espera, e que era tão sossegada e pensativa. Muitas noites ela ficava perto da janela aberta, olhando através das águas azuis escuras, e admirando os peixinhos chapinhando na água com suas barbatanas e caudas.
Ela conseguia ver as estrelas e a lua muito palidamente, mas através da água elas pareciam maiores do que aos nossos olhos. Quando algo como uma nuvem negra passava entre ela e as estrelas, ela sabia que se tratava de alguma baleia nadando acima da sua cabeça, ou um navio cheio de seres humanos, que jamais imaginariam que uma linda sereiazinha estava debaixo deles, acenando com suas mãozinhas brancas para a quilha do navio.
Assim que a mais velha completou quinze anos, ela teve permissão para subir até a superfície do oceano. Quando voltou, ela tinha centenas de coisas para contar, mas o mais lindo, dizia ela, era ficar sentada ao luar, sobre um banco de areia, no mar tranquilo, perto da costa, e ficar olhando para uma cidade grande que fica ali perto, onde as luzes piscavam como centenas de estrelas, e ficar escutando o som das canções, o barulho das carruagens, e as vozes dos seres humanos, e depois ouvir os sinos tocando e balançando alegremente nos campanários das igrejas, e como ela não podia se aproximar de todas aquelas coisas maravilhosas, ela ficava imaginando como seria tudo aquilo de perto. Oh, e não é que a irmã mais jovem ouvia ansiosa todas essas histórias? e mais tarde, quando ela ficava com a janela aberta olhando através das águas azuis escuras, ela pensava na grande cidade, com todo o barulho e agitação, e até ficava imaginando que ela podia ouvir o som dos sinos tocando, lá embaixo nas profundezas do mar.
No outro ano a segunda irmã recebeu permissão para subir até a superfície da água, e ficar nadando onde ela quisesse. Ela chegou à superfície assim que o sol estava se pondo, e isto, disse ela, era a coisa mais linda que ela já tinha visto. Todo o céu parecia dourado, enquanto nuvens violetas e róseas, que ela não conseguia descrever, flutuavam acima dela, e, ainda mais rápido do que as nuvens, voava um enorme bando de cisnes selvagens em direção ao por do sol, parecendo com um longo véu branco atravessando o mar. Ela também nadou em direção ao sol, mas ele mergulhou no meio das ondas, e as tintas róseas desapareceram das nuvens e do mar.
A vez da terceira irmã havia chegado, ela era a mais corajosa de todas, e ela nadou até um rio muito largo que desembocava no mar. Sentada na margem, ela avistou verdes colinas cobertas com lindos vinhedos, palácios e castelos ficavam espiando por entre as árvores orgulhosas da floresta, ela ouviu os pássaros cantando, e os raios do sol eram tão poderosos que ela muitas vezes era obrigada a mergulhar debaixo das águas para esfriar o rosto que ardia. Numa enseada estreita ela avistou todo um grupo de pequenas crianças humanas, totalmente sem roupas, e que brincavam na água, ela queria brincar com elas, mas elas fugiram muito assustadas, e então, um pequeno animal negro se aproximou da água, era um cachorro, mas ela não sabia disto, porque ela nunca tinha visto um antes. Este animal latiu para ela de modo tão assustador que ela fugiu amedrontada, e correu de volta para o mar aberto. Mas ela disse que jamais se esquecerá da bela floresta, das colinas verdes, e das lindas criancinhas que nadavam na água, embora não tivessem rabo de peixe.
A quarta irmã era mais tímida, ela ficou no meio do oceano, mas disse que lá era tudo tão lindo como perto da terra. Ela podia ver há muitas distâncias em torno dela, e o céu lá em cima se parecia como um sino de vidro. Ela tinha visto os navios, mas a uma distância tão grande que eles pareciam como gaivotas. Os golfinhos brincavam com as ondas, e as grandes baleias lançavam água de suas narinas até que pareciam como se centenas de fontes estivessem brincando com água em todas as direções.
O aniversário da quinta irmã aconteceu no inverno, então, tinha chegado a vez dela, ela viu o que as outras não tinham visto na primeira vez que haviam subido. O mar parecia totalmente verde, e imensos blocos de gelo flutuavam por todos os lados, cada um parecido com uma pérola, disse ela, porém, maiores e mais majestosos do que as igrejas construídas pelos homens. Elas tinham os formatos mais singulares, e brilhavam como diamantes. Ela então, se sentou sobre um dos maiores, e o vento brincava com seus cabelos longos, e ela notou que todos os navios passavam rapidamente, e iam para lugares tão distantes quanto possível dos blocos de gelo, parecia que tinham medo deles. Ao anoitecer, depois que o sol se pôs, nuvens escuras cobriram o céu, os trovões rolavam como pedra e os relâmpagos reluziam, e a luz vermelhava brilhava sobre os blocos de gelo a medida que balançavam e agitavam o mar que subia. Todas as velas dos navios encolhiam de medo e tremiam, enquanto ela se sentava calmamente sobre o iceberg que flutuava, admirando os relâmpagos azuis, quando eles penetravam seus raios com múltiplos braços dentro do mar.
Quando as irmãs tiveram permissão para subir à superfície pela primeira vez, todas elas ficaram felizes com as paisagens novas e belas que viram, mas agora, como as garotas já haviam crescido, ela podiam ir para onde quisessem, e até ficaram indiferentes com isso. Elas desejavam voltar novamente para a água, e depois que um mês tinha se passado elas diziam que tudo era muito mais lindo lá embaixo, e que era muito mais agradável ficar em casa. Mas ainda nas horas da noite, as cinco irmãs abraçavam-se umas às outras, e subiam até a superfície, em fileira.
Elas tinham vozes muito mais lindas do que qualquer humano poderia ter, e antes que a tempestade se aproximasse, quando elas pensavam que um navio iria naufragar, elas nadavam diante do barco, e cantavam docemente as delícias que poderiam ser encontradas no fundo do mar, e pediam aos marinheiros para que eles não tivessem medo caso naufragassem até o fundo. Mas os marinheiros não conseguiam entender a canção, e eles pensavam que eram os gritos da tempestade. E elas nunca gostavam de ver estas coisas, pois se o navio afundasse, os homens se afogariam, e apenas o corpo deles chegava ao palácio do Rei dos Mares.
Quando as irmãs subiram, abraçadas umas às outras pelas águas dessa maneira, a irmã mais jovem delas gostava de ficar sozinha, preocupada com elas, pronta para gritar, o único problema era que as sereias não possuíam lágrimas, e por isso elas sofriam mais. "Oh, se eu já tivesse quinze anos," dizia ela: "Eu sei que eu amarei o mundo que fica lá em cima, e todas as pessoas que moram nele."